"O universo não foi feito à medida do ser humano, mas tampouco lhe é adverso: é-lhe indiferente." (Carl Sagan)

sábado, 25 de abril de 2009

Uma Mulher chamada Guitarra

Vinicius de Moraes

UM DIA, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era "a música em forma de mulher". A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam um mot d'esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos.

0 violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina — viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo — o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada, mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres-contrabaixo.

Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação que o violão oferece; como negam-se a se deixar cantar, preferindo tornar-se objeto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar, em benefício de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos.

Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de
la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer "passado na cara" por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto.

Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas... Até na maneira de ser tocado — contra o peito — lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.

Ponha-se num céu alto uma Lua tranqüila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seus tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranqüila num céu alto? E eu vos responderei; um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.

Texto extraído do livro "Para Viver um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 14.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Tiradentes (principalmente os de ouro!)

Que feriado besta é esse afinal? Joaquim José da Silva Xavier? Bode expiatório de pseudo-amigos mais espertos pra não serem enforcados e esquartejados também? Um verdadeiro laranja! Deve ser uma data mais importante que a de amnhã, descobrimento (descobrimento?? hahahah) do Brasil (tão besta quanto, mas ao menos não é digno de ser um feriado). E o que mudou de lá pra cá? Acredito que a tão temida derrama que Portugal planejava fazer acontece nos dias de hoje de forma mais velada. Penso nisso, por exemplo, quando eu,na qualidade de músico profissional, tento importar um instrumento musical sem qualquer similar no Brasil e no entanto ainda sou taxado pela Receita Federal em 60% de imposto. Quando o assunto é importação de instrumentos e equipamentos musicais a coisa vira uma grande e absurda piada nacional. Brasil! Brasil! Assim vocês me quebram as pernas (e as de Tirandentes também, literalmente, hahaha). E a saída pra isso? Bom, existem vários aeroportos internacionais no Brasil, é só escolher..."A língua é minha Pátria, e eu não tenho Pátria, tenho Mátria e quero Frátria".

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Motorhead no Brasil...

Não sou expert em Motorhead, mas compreendo a influência da banda na história do Heavy Metal, liderada por Lemmy Kilmister, que já foi roaddie de Jimi Hendrix, autor de uma das maiores baladas de Ozzy Osbourne (Mama I’m coming home) e que conta com a participação de Steve Vai em seu último disco. Aliás, falando em influenciar outras bandas, vejamos a resposta de Lemmy ao ser perguntado: “Como vocês vêem a influência de vocês nas outras bandas?” Lemmy: “Não vejo. Eles se dizem influenciados, mas eu não vejo nenhuma semelhança. Aí eles dizem que nós os influenciamos e eu digo ‘e aí, o que deu errado?’.Quando tocamos no Ozzfest, todas as bandas eram tão más. Me senti super deslocado lá, parecia que nós éramos os Três Patetas. Quatro se você contar o Ozzy Osbourne”.

Bom, depois dessa vamos a algumas frases que definem o estilo Lemmy de ser...

“Nunca fui para a cama com uma garota feia, mas acordei com algumas delas”.

“Não é tanto ser bonito, é mais fazê-las rir. Garotas não se importam muito com caras bonitos no final das contas. Isso ocorre porque elas todos os dias colocam e tiram a maquiagem, e sabem o quanto beleza é superficial”.

“São poucas as garotas que se interessam por um cara de 64 anos, ao contrário do que acontece quando se têm 24 anos”.

“Hobbies? Pegar mulheres, suponho. Na verdade, não, isso é uma carreira. A música é o hobby".

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Reactable para todos, por favor!

Primeiro os instrumentos musicais exigiam perícia física, coordenação. Com os computadores, fazer música passou a depender de teclado, mouse e programas de mixagem e remixagem. O Reactable alia esses dois lados: explora o lado conceitual do fazer música - entender o que está fazendo é mais importante do que dominar o aspecto psico-motor - mas traz isso para um ambiente físico, onde objetos são manuseados.

Reactable. Música táctil. Peças dispostas sobre uma superfície circular - cada uma tem símbolos que uma câmera disposta sobre a mesa identifica e localiza na mesa. Um computador processa essa informação, transformando-a em imagem e em som. A imagem é projetada, dando forma visual à música.

Fazer música é um trabalho que envolve perícia mecânica, coordenação motora - acertar as teclas certas dentro de um ritmo. É em parte como datilografar. A arte pode até existir dentro de você, mas para ela se materializar, você precisa desenvolver uma habilidade corporal.

O Reactable aproxima a música da gente. É um pouco como assobiar. Você vê o que está acontecendo. As peças têm formatos diferentes, cada tipo com uma função: ritmo, tom, efeito. A posição espacial delas na mesa modifica de alguma maneira o som. E alguns objetos também interferem no som gerado por outros dependendo da proximidade entre eles.

Bjork foi o passarinho que espalhou primeiro essa semente. Ela conheceu o instrumento há coisa de uns anos (jamais me esquecerei de quando vi isso com meus próprios olhos ao vivo no Tim Festival de 2007). E o Reactable virou uma das atrações de sua turnê mundial. Desde então, outros passarinhos apareceram. Quem tem música na barriga, não se segura.

Reactable conjuga tecnologia e arte a ponto de não se saber separar uma da outra. E leva de volta a música para o corpo, como o pé batendo no chão, como cantar, que a gente faz sem escola, vivendo a música, sendo música.

Fonte: www.naozero.com.br

Maiores informações: www.mtg.upf.es/reactable/

Vídeos: http://www.youtube.com/watch?v=0h-RhyopUmc